Instalada junto com o novo município, em 1965, a Casa
começou de forma improvisada, acompanhou o crescimento urbano e se consolidou
como parte da vida pública votorantinense.
Por Raphael Moreno
A história da Câmara Municipal de Votorantim começa com a
própria formação do município. Depois do plebiscito realizado em 1º de dezembro
de 1963, que confirmou a vontade da maioria da população pela emancipação,
Votorantim deixou de ser distrito de Sorocaba e passou a construir sua
trajetória administrativa e política. O município foi criado pela Lei Estadual
nº 8.092, de 28 de fevereiro de 1964, e instalado oficialmente em 27 de março
de 1965.
Naquele dia, uma solenidade no Clube Atlético Votorantim
marcou a posse da primeira administração autônoma da cidade. O vereador mais
votado, Domingos Mitidieri Filho, assumiu a presidência da Câmara e deu posse
ao prefeito Pedro Augusto Rangel e ao vice-prefeito Laurindo Alves da Silva.
Começava ali a história do Legislativo votorantinense.
Poucos dias depois, em 1º de abril de 1965, foi realizada a
primeira sessão ordinária da Câmara Municipal. Os nove vereadores da primeira
legislatura iniciaram os trabalhos em um cenário ainda distante da estrutura
existente hoje. O prédio que abrigou os primeiros passos da Casa, atual sede do
Legislativo, funcionava então como uma pequena facção têxtil e foi cedido sem
reforma nem adaptação.
Primeiro diretor da Câmara, Edson Veronese recorda que o
início foi marcado por carências e improvisos. Segundo ele, não havia mesas,
cadeiras nem material de expediente. O plenário foi montado com carteiras
escolares aproveitadas de um curso realizado durante o processo de emancipação
do município. A estrutura administrativa também era mínima. A Câmara começou
com apenas três funcionários: o próprio Veronese, na secretaria, uma servidora
responsável pela limpeza e pelo café e, um vigia noturno.
A falta de recursos era tanta que servidores e vereadores
levavam de suas residências: papel, canetas e outros itens básicos para manter
o funcionamento da Casa. Nos primeiros meses, o município ainda não dispunha de
arrecadação regular e a rotina exigia esforço redobrado de todos os envolvidos.
As sessões ocorriam às terças e sextas-feiras, sempre a
partir das 20 horas, e muitas vezes atravessavam a madrugada. Vários vereadores
eram operários. Em alguns casos, saíam do plenário direto para o trabalho nas
indústrias. Nas primeiras legislaturas, também não havia remuneração para os
parlamentares. O trabalho era sustentado pelo compromisso com a cidade
recém-instalada.
Edson Veronese resume aquele período como um tempo de
dedicação e senso de missão. Para ele, o que movia a Câmara era a disposição de
ajudar a organizar um município que dava seus primeiros passos. A precariedade
da estrutura, no entanto, não impedia o funcionamento do Legislativo nem
diminuía a importância das decisões tomadas naquele momento.
Quem acompanhou de perto parte dessa trajetória foi o
jornalista José Antonio Rodrigues, o César da Folha. Ele passou a frequentar a
Câmara em 1978, quando a Casa funcionava em um espaço apertado no prédio da Rua
Monte Alegre. Segundo ele, as sessões já revelavam a força do debate político
local e o empenho dos vereadores em tratar das demandas da cidade.
Na avaliação do jornalista, a Câmara nasceu em um momento
decisivo para Votorantim e ajudou a dar direção ao município. Mesmo em fases
distintas e sob diferentes composições políticas, o Legislativo manteve,
segundo ele, uma ligação constante com os interesses da população e com o
crescimento da cidade.
A relação com a imprensa, no entanto, era bem diferente da
atual. Naquele período, a Câmara não contava com assessoria de comunicação. A
divulgação das decisões e discussões dependia, em grande parte, da cobertura
dos veículos locais. César da Folha lembra que o jornal exercia papel
importante como elo entre o Legislativo e a comunidade.
Ao longo dos anos, a Câmara também mudou de endereço. Depois
de funcionar no prédio inicial, transferiu-se para um imóvel na antiga Rua do
Comércio, atual Avenida 31 de Março. Mais tarde, passou a ocupar um casarão na
esquina da Avenida 31 de Março com a Rua Monte Alegre. Em meados de 1982,
retornou ao primeiro prédio, já desapropriado e incorporado ao patrimônio
público.
Com o avanço de Votorantim, a estrutura do Legislativo
também precisou crescer. Novas salas foram construídas, setores foram criados e
o prédio ganhou pavimento superior. O que começou em espaço improvisado, com
móveis escassos e quadro reduzido de servidores, se transformou em uma
instituição consolidada e integrada à rotina administrativa do município.
A trajetória da Câmara Municipal de Votorantim reflete,
assim, o próprio desenvolvimento da cidade. Desde os tempos em que as sessões
avançavam pela madrugada e os vereadores ocupavam carteiras escolares, até a
estrutura atual, a Casa acompanhou as mudanças do município e participou de sua
construção institucional.
Mais do que guardar a memória de seus primeiros anos, a
história da Câmara ajuda a compreender o caminho percorrido por Votorantim
desde a emancipação. É uma história feita de trabalho, adaptação e participação
pública, lado a lado com o crescimento da cidade.
Fonte:
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